(continuação)Daí a
felicidade acordou a mim, nos agarramos de uma forma selvagem isso provocado
pela saudade que guardávamos em nós, enquanto eu puxo seus cabelos, ele morde
meu pescoço, me joga na cama, tirando sua roupa e a minha também, não houve
diálogo, mas ainda guardei as falas que ensaiei, apenas sussurros, suor, tapas,
gemidos e aconteceu, o que não tinha acontecido antes, deixei ele me fatiar,
agora eu sou seios e ventre. Acabamos então, me sinto meio estranha, estava
feliz por ter o homem que amo do meu lado, porém triste com a mesma sensação de
sempre, pesava-me o fato de nada daquilo ser meu, nem a casa, nem a cama, nem o
café, nem ele. Ainda deitados na cama nos olhamos, sabia que seria a ultima vez,
eu disse que teria que ir embora, ele sorriu como se me dissesse para voltar
mais. Então eu vesti minhas roupas, ele continuou deitado na cama a me
observar, dei as costas pra ele enquanto mexia em minha bolsa, então falei que
havia esperado ele por muitos dias e noites, sem tirá-lo um minuto do
pensamento e perguntei se ele nunca voltaria pra mim? Ele me disse que as
coisas tinham ficado confusas e que achou melhor não mexer comigo outra vez, eu
sempre soube que ele nunca me quis de verdade, então me
perguntou se eu iria continuar esperando por ele, sorri disfarçadamente, ainda
de costas pra ele tirei o revolver da bolsa , engatilhei as balas, virei
pra ele com arma em punho e respondi, não, eu continuo te amando, mas agora
quem vai me esperar é você seja lá onde você estiver, disparei três tiros, sem
chance dele fugir, os olhos castanhos agora brilhavam do forma assustadora
enquanto ele agonizava cheguei mais perto e sorri pra ele, deixei
ele ir outra vez. Recolhi o revolver e saí de sua casa, mais alegre, foi como
eu tivesse tirado um peso da minhas costas, ele agora iria esperar por mim
aonde ele estivesse, saí de sua casa alegre, contagiando a todos em volta e
caminhava rapidamente e meio que saltitante, escutando uma canção que me
empolgava mais... foi ai então que eu acordei. Abro meus olhos, estou sentada
ainda em meu sofá, com a tv ligada, e os pés na bacia de água com sal grosso,
respirando fundo, coração acelerado, me dei conta que tudo isso não tinha
passado de um sonho e apesar da ilusão me parecia muito real, ainda assustada,
levantei, desliguei a televisão, sequei os pés com uma toalha que estava no meu
ombro, e dessa vez fui pra cama para dormir de verdade, deitei e o sono chegou,
eu dormir, para poder acordar amanhã e voltar para escola afinal de contas,
durante o dia eu sou alegre e prestativa o drama só vem a noite, como todos os
dias, eu renasço em todas as manhãs.
Existem muitas histórias, algumas são como as passagens das
estações, que apesar do frio que vem com o inverno, sempre chega a primavera
com a alegria no ambiente, já outras são como uma doença degenerativa, que
só emudece. Algumas pessoas nascem para viver histórias felizes, já outras
vivem histórias de dramas que nem todas as vezes acabam no final, mas uma coisa
é certa, todas elas tem sonhos dos mais variados tipos.
A
noite passou, depois de muito tentar dormir estou de pé, de volta a minha
rotina mas hoje tenho uma missão a cumprir... essa seria a parte mais breve da
história, estou certa e convicta que devo fazer o que minha mente diz e por
mais que eu não encontre forças devo encará-lo frente a frente. Não enxerguei o
café na mesa, a fome foi entupida pela ansiedade, enquanto eu tomava banho
ensaiei as falas para o próximo ato. Estou pronta e lá vou eu, posicionei minha
bolsa de forma cuidadosa embaixo do braço. Caminho cercada de pessoas, porém
escuto meus passos ecoando na minha cabeça por dentro dos fones de ouvido sigo
empolgada pelo som da canção, sorrindo com os olhos, espalhando doçuras com os
mesmos. Eu rebaixo meu ego, para que não mostre os meus sentimentos mais
ocultos, e apesar da noite conturbada de cansaço e confusões eu me sinto firme,
por um instante não creio estar dentro da realidade. Cheguei na casa deles, ela
veio atender a porta, estavam tomando café, ele me olhou normal aparentemente,
porém eu sabia que havia o surpreendido, me convidou para tomar café, aceitei,
sua mulher me pareceu não concordar muito com a ideia, eu não pareço confiável
pra ela. Entramos em um diálogo, descontraído e fértil, até que ela
se levantou e disse que teria que ir para o trabalho, me falou para visitá-los
mais vezes, me deu um abraço um tanto desconfiado, eles se cumprimentaram com
um beijo e ela saiu. Ele está desempregado, por isso ficaria em casa, eu e ele
continuamos sentados a mesa, até escutarmos o som da porta se fechar nos dando
a certeza de que ela tinha saído,nós
nos levantamos conversando disfarçadamente e nos olhando fixamente cada vez
mais, até que não houve mais assunto para serem tocados, era só eu e ele agora
e apesar de todas as respostas que eu procurava, não exigi nem uma palavra
dele, ele também nunca havia me prometido nada, então nos beijamos... (continua)
Bem, eu já levantei mesmo, a rua onde eu moro está muito silenciosa, chega a despertar minha curiosidade, a casa tá escura, eu me arrisco a andar por ela, abro a janela da minha sala de estudos a mesma que é iluminada pela luz da lua, mas, nossa que luar! Empolgo-me a abrir a porta da rua e me sento no passeio da casa a observar o luar, algumas nuvens ralas passam pela frente dele, deixando a lua com um tom marrom meio amarelado, assim como eram os seus olhos ...
Aqueles que lhe enfeitavam a face, juntamente com o sorriso, bastante acentuado que, aberto, se tornava imenso e provocava o surgimento de duas barrocas em suas bochechas, o rosto sempre vívido e alegre, raramente o vi cabisbaixo, cabelos castanhos por onde meus dedos passeavam, braços longos nos quais repousei, me trazendo uma sensação de alívio momentânea as sobrancelhas eram proporcionais aos olhos... os olhos, como falar deles? Eu realmente não sei o que dizer dos seus olhos, apenas que eram incandescentes e coloridamente castanhos. Os olhos castanhos os quais eram o portal para seu interior, onde eu andei e passei direto, não fiz morada dentro deles como eu desejava, só bastava um olhar pra fazer renascer milhares de coisas em mim, me queimavam adoçadamente, entre outras coisas que por mais que eu procure, não consigo palavras para descrevê-las.
Se bem que faz um tempo que eu espero pra me entregar de vez ao seu olhar novamente, assim, como da primeira vez, na qual dançamos juntos, permitimos entrar cada um no olhar do outro, ele apenas disse o meu nome e daí nos entregamos, não dava pra conter, havia desejo, havia vontade, a energia dos corpos se pedindo, não pensávamos no passado, nem no futuro, somente naquele momento, que era só nosso apesar de ter tocado uma terceira pessoa, a única testemunha do nosso ato insanamente sentimental, a única pessoa que sabe de todos os detalhes que nem mesmo eu e ele sabemos.
O luar agora se torna mais nítido, as nuvens já passaram, o sereno resfria a ponta do meu nariz devo voltar para dentro da minha casa apesar da hora que é, não sinto medo de ficar aqui, depois dessas coisas que tenho sentido, perdi o medo de algumas coisas e não me assusto muito com outras. Não há nada de complicado, eu me conformo então em voltar pra cama e tentar dormir outra vez.
Não adianta eu deitar para dormir, tenho que fechar os olhos, controlar os pensamentos atribulados e deixar que o sono venha. Minhas madrugadas costumavam a serem regadas por remédios para ansiedade que hoje acabaram e não pude conseguir mais, a sorte é que o cansaço hoje é maior e por isso consigo dormir sem tomar remédios. As luzes estão apagadas, olhos fechados, me sinto na escuridão da escuridão, nela os sentidos se aguçam mais. A música do corpo, os agudos da respiração, o grave dos batimentos cardíacos o ritmo do sangue correndo que nunca para, olhos com fome de claridade mas que não se abrem, para que as pupilas não se dilatem pois na escuridão tudo é mais sentido.
Uma coisa, nos encontramos uma vez por semana, não para nos amar, mas pra realizar uma atividade em comum, um gosto no qual compartilhamos juntos, em um mesmo local, em um mesmo horário,nesse dia minha tristeza recebe mais uma dose de incentivo, e apesar de lá estarmos cara-a-cara, agimos aparentemente normal, todas as sensações são ignoradas, tenho cuidado para não deixar transparecer nada, nem pra ele, nem pros outros. Realmente ele tá mais perto de mim do que vocês imaginam, eu não uso isso pra me confortar, mas faço desse um momento para aproveitar da forma que eu posso. Outro dia sem querer esqueci meu olhar em cima do dele, mudei rapidamente, tentei disfarçar em vão mas assim como eu, ele sabe que não é tão simples fingir que nada aconteceu. Sensações bloqueadas e no lugar delas apenas o silêncio... sei onde fica a casa onde ele mora, sem quem é sua mulher, sei quem são seus pais, conheço seus melhores amigos, só não faço mais parte de sua rotina diferente de quando éramos amigos, conversávamos com mais frequência... taí uma coisa que também não tinha dito, tinhamos uma amizade, digna daquelas de vagabundear juntos pelas ruas com sorrisos e rezenhas. Não sei se a amizade acabou, creio que foi interrompida por esse turbilhão de sentimentos, já que não me sinto mais tão tranquila perto dele nessas condições (levanta-se da cama e olha ao redor) lembranças boas, diminuem o peso das consequências. 2:15 da manhã, agora eu me sinto mais apática afinal de contas, não é eu quem sou iludida vai ver é ele quem não me ama...
A noite costuma chegar cheia de fardos pesados nas minhas
costas. Por um momento alívio, relaxo forçadamente despojada no sofá, com
meus pés na bacia, lembro que devo ir a cozinha catar algo pra comer. Não sei
porque mas no vazio, sinto como se alguém estivesse me vigiando, eu bem queria
que aparecesse alguém do nada e me dissesse: “Bum! Isso é uma pegadinha, agora
você pode voltar pra sua vida de verdade que é bem mais serelepe e colorida!”
(risos) É, eu sei que tenho uma mente fértil e apesar de estar a todo tempo
pensando na volta dele, eu viajo demais... viajo muito, acho que é por isso que
ainda estou viva. Tudo bem, devo parar de falar como uma adolescente.
Uma xícara de café, dois pães, sofáenovela.
O casal de amantes se beijam e conversam na tv, ele diz pra ela que não pode
perder-la, e também não pode perder sua esposa, e que se sente como se
estivesse se jogando em uma loucura, e se perdendo em um caminho feliz, porém
tentador, e ela responde que sente o mesmo e pergunta se ele acredita nela. Eu
bem queria que o meu amado viesse até mim e me dissesse o que ele sentia, e eu
responderia que também sentia o mesmo. Apesar de estar sempre procurando atividades
extras para assim ocupar mais minha mente, não consigo tirá-lo dos meus
pensamentos e no final do dia estou sempre assim, sobrecarregada de dores e
cansaços. Daí então que vem a desilusão, eu me lembro de uma série de fatos que
me vem como flash de memórias e pontos negativos, tipo da ultima vez que
ficamos, estávamos um sentado ao lado do outro, e só eu me virava para
beijá-lo, ele só recebia meus beijos, aqueles que pra mim eram como o da
primeira vez, com as pernas meias trêmulas, a respiração ofegante e o coração
acelerado, não sentia frio, não sentia cansaço, apesar de que estávamos nós lá,
sentados em uma calçada. Eu, ele, a paixão, e outro elemento que acabou se
tornando um guardião do nosso caso.
Na tvagora,
um cara declama trechos de “Otelo, a tragédia do ciúmes”, taí uma coisa que me
deixava mal toda vez que ele tinha que ir embora, o ciúmes e o medo de que ele
não volte mais, como se tivesse segurando um punhado de areia na mão, e de que
apesar de apertar com força, a tendência seria escorrer, grão por grão até
restar alguns vestígios que o vento carregaria, e assim foi. (desliga a tv e
liga o rádio) rádio: 'The thrill is gone, the thrill is gone baby...',
Nossa a inconfundível voz do grande B.B. King, corresponde com minha morbidez,
dá até vontade de dançar (risos). Enfim, depois do banho só me resta deitar,
descansar, tentar vê-lo em meus sonhos, já que chamo ele durante todo o dia.
Caneta e cheque na mão, o que tem? Voltei aqui porque não me senti bem Só sei que o bom é de graça e não vem Dinheiro? Respeito? o que não convém? Pra quem me olha e finge que não ver Saibas que eu vejo todos vocês Tão ruim, tão maduro, tão pequeno que sou Mesmo assim tô na frente, desistir não vou Não vou deixar de ser o que eu sou Para agradar quem não me dá valor Não falo de amores, mas não estou sozinho Se eu quero eu consigo, sem nada ao meu auxílio Não falo de amores, cansei do meu castigo Hoje sei o que sinto, na pele o que eu vivo Porque as vezes sinto o que é melhor Esconder de mim ao ter que ficar só Mas meu alucinógeno acabou de acabar Falta calças e forças para lutar Mais uma doze de humanidade pra nós Para conversar sem levantar a voz Deixar pra depois, vendo sangue escorrer Alimentar, acabar e assim resolver É só pra você, então perceber, não sou diferente você Não vá esconder, ou deixar de saber, não sou diferente você M.L.